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Caderno pedagógico

  • por

Autoavaliação: um aprendizado necessário

Enílvia Rocha Morato Soares

Integrante do GEPA – Grupo de Pesquisa em Avaliação e Organização do Trabalho Pedagógico

Doutora em avaliação

Professora aposentada da Secretaria de Educação do DF

Em conversas sobre avaliação são muito comuns questionamentos em que professores fazem referência ao número excessivo de estudantes em sala de aula. Perguntam: como colocar em prática a avaliação formativa, que exige o diagnóstico permanente de todos os estudantes a fim de intervir junto a eles promovendo as aprendizagens ainda não construídas, se trabalhamos com uma quantidade exorbitante de estudantes em sala de aula?

            A esse respeito, Luiz Carlos de Freitas afirmou, em uma live realizada em outubro de 2020[1], que “a melhor reforma educacional de que se tem conhecimento é aquela que reduz o número de estudantes em sala de aula. Se você quer ser inclusivo, não pode colocar um professor com 40 alunos. Como ele dá conta de acompanhar esses estudantes?”. O professor acrescentou ainda que essa é uma reforma que demandaria investimento tanto na construção de mais escolas como na contratação de novos professores, o que não é interesse do Estado que opta por investir em exames externos, construindo caminho para transferir a educação do Estado para a iniciativa privada (para aprofundamento, consultar FREITAS, Luiz Carlos de. A reforma empresarial da educação: nova direita, velhas ideias. São Paulo: Expressão Popular, 2018). 

            Lutas que visam conquistas dessa natureza costumam ser longas, considerando que a nossa sociedade, dividida em classes, se organiza em função de manter os privilégios da elite dominante, utilizando-se de diferentes estratégias, entre elas, a distorção do conceito de qualidade da educação, fartamente difundida como obtenção de boas notas/índices em exames aplicados em larga escala.

            Enquanto isso, milhares de estudantes de diferentes condições sociais, econômicas e culturais ingressam na escola e percorrem os anos escolares demandando um ensino que os atenda em suas especificidades.  Não podem, portanto, esperar por resultados de lutas históricas por políticas públicas que revertam o atual quadro de desmonte da escola pública.

            Sem abandonar a incessante busca por melhores condições de trabalho e estudo, nos cabe envidar esforços no sentido de encontrar meios para que o acesso às aprendizagens por parte de todos os estudantes se torne realidade. A avaliação formativa é parte indissociável desse processo e comporta variações que podem auxiliar-nos nessa empreitada. A autoavaliação é uma delas. Quando bem conduzida, retira do professor a responsabilidade única de avaliar, promovendo a autonomia dos estudantes. Mesmo quando cientes dessa possibilidade, muitos professores se privam de utilizá-la por desconhecimento sobre sua prática. A necessidade de esclarecimentos justifica as reflexões aqui apresentadas. 

            Embora a referência inicial tenha sido em relação ao número de estudantes em sala de aula e ao auxílio da autoavaliação aos professores que se veem nessa condição, é importante destacar, de antemão, que a prática da autoavaliação não se restringe à sala de aula e não é realizada exclusivamente por estudantes. Toda a escola, ou seja, todos os profissionais que nela atuam participam desse processo. Daí a importância e necessidade de que seja canalizada no sentido formativo.

   Para que assim se desenvolva, a autoavaliação precisa ser ensinada/aprendida. Trata-se de um aprendizado que deve ser estimulado desde os anos iniciais de escolarização, podendo ser praticada de diferentes formas, uma vez que todos os recursos avaliativos podem associar-se à autoavaliação. Quando não vivenciada desde a infância, estudos sobre o tema são necessários, o que torna a formação docente imprescindível para a adoção da autoavaliação como estratégia avaliativa.

  A autoavaliação fomentada pelo professor em sala de aula não se dissocia da que acontece no âmbito da escola quando o trabalho que realiza é objeto de reflexões e proposições. No entanto, o intuito de melhor organizar as análises aqui apresentadas indicou a necessidade de abordá-las separadamente, iniciando pela que acontece ao longo do processo ensino aprendizagem.

O ponto de partida para a aprendizagem da autoavaliação é a avaliação colaborativa e dialogada entre professor e estudantes, o que requer proximidade entre eles e é viabilizada pelo atendimento atento e prestativo às necessidades evidenciadas. A possibilidade desse suporte é mais viável nos anos iniciais quando o professor trabalha com apenas uma ou duas turmas e o número de estudantes sob sua responsabilidade é menor. Por esse motivo e por possibilitar torná-los autônomos para o exercício da autoavaliação nos anos finais do ensino fundamental, quando a quantidade de estudantes por professor aumenta consideravelmente, esse período escolar pode ser considerado mais adequado para a introdução da autoavaliação pelos estudantes.

Por meio de um diálogo respeitoso, mas também provocativo (oralmente ou por escrito), o professor contribui para estimular que os estudantes reflitamsobre suas aprendizagens em construção e as ainda não iniciadas, bem como sobre como avançar nesse percurso. Precisa do meu auxílio? Onde posso ajudá-lo? O que está sendo difícil para você? Que outro caminho poderia seguir para prosseguir na atividade? Como esse trecho pode ser melhorado? Questões nessa direção instigam o estudante a pensar sobre seu processo de aprendizagem e sobre meios de fazê-lo progredir.

Por constituir princípio da função formativa da avaliação, a ética é inerente à autoavaliação. A parceria professor-aluno que encoraja a autoavaliação fica comprometida quando pautada na desconfiança e no desrespeito. Se as informações fornecidas pelos estudantes sobre suas incertezas forem utilizadas em prejuízo próprio, a tendência será camuflá-las, inviabilizando uma autoavaliação fidedigna. As fraudes utilizadas por muitos estudantes para a entrega ou exposição de tarefas sem erros exemplificam a negação do desnudar de suas reais condições, impedindo um diagnóstico que permita reorganizar o ensino, visando auxiliá-los.

Isso significa que a autoavaliação realizada pelos estudantes incita a autoavaliação pelo professor. Quando desvelado pelos estudantes o que está impedindo ou dificultando que sigam adiante, o professor se apropria de importantes informações sobre seu trabalho e, em decorrência, adquire melhores condições para revê-lo, guiado pelo intento de remover tais entraves.

Ainda sobre a interlocução entre professor e estudantes que medeia a avaliação, é importante que se constitua também da valorização das aprendizagens já consolidadas. Nada mais desanimador que conversas que enfatizam dificuldades, secundarizando ou mesmo desconsiderando as conquistas. Ademais, aprendizagens já alcançadas costumam embasar outras, assim como o caminho que levou a elas pode ser reutilizado em situações que requerem maior esforço. 

Por tratar-se de um mecanismo assentado na colaboração e no respeito às contribuições do outro, a avaliação por pares também concorre para a aprendizagem da autoavaliação. Quando realizada pelos colegas, a avaliação ganha ares de apreciação e não de julgamento, por partir de alguém com linguagem semelhante e saberes aproximados.  

                            Além disso, uma convivência pacífica com a avaliação desde os         tempos de estudante, contribui para que o temor que muitos cultivam em relação a ela se dissipe, dando vazão ao entendimento do seu                                       real papel de auxiliar no planejamento do trabalho pedagógico e         na promoção das aprendizagens”. (Villas Boas, et al, 2025, p. 84)

Esse é um processo que exige acompanhamento e orientação atenta do professor, uma vez que é também aprendido. Se em sala de aula a prática avaliativa é orientada pela comparação, competição e classificação, o mais provável é que seja reproduzida pelos estudantes, comprometendo o pretenso aprendizado da autoavaliação. 

A avaliação dialogada, a avaliação por pares e a autoavaliação permitem que o protagonismo docente vá cedendo espaço aos estudantes, permitindo que se reconheçam nos diferentes momentos de seu processo de aprendizagem, tornando-se cada vez mais autônomos. Esse percurso conduz ao “autocontrole refletido das ações e condutas do sujeito que aprende” (Hadji, 2001, p. 103), ou seja, à metacognição[2].

Uma avaliação que valoriza e promove a colaboração e a participação estudantil reúne melhores condições para a formulação de diagnósticos mais aproximados das suas reais condições de aprendizagem.  Assim como é o professor quem melhor conhece o que os estudantes precisam aprender, reconhecer e descrever o desejável e indicar como o desempenho ainda incipiente pode ser melhorado (Villas Boas, 2017), é o estudante quem melhor pode dizer de si mesmo e fornecer relevantes informações a seu respeito.

Essa autopercepção demanda, no entanto, conhecimento sobre onde será preciso chegar. Não há como se situar em uma trajetória cujo final é desconhecido. Daí a necessidade de que haja clareza sobre as aprendizagens a serem construídas, bem como o nível de complexidade em que se deve alcançar. Conhecer e até mesmo participar da definição dos critérios que serão considerados ao analisar o alcance de objetivos é mais um valioso meio de envolver os estudantes, tornando-os coparticipantes e corresponsáveis pelo processo avaliativo.

O ponto de chegada é parte das informações que o estudante precisa conhecer para que se autoavalie. Conhecidos como feedback, esclarecimentos quanto ao estágio em que os estudantes se encontram ao longo do percurso também são necessários.  Considerações sobre suas potencialidades, aspectos que merecem atenção e estratégias que os auxiliem a progredir devem ser incluídas (ver aprofundamento do assunto no Caderno Pedagógico intitulado “Por que falar sobre feedback é importante?”).

O feedback favorece o exercício da autoavaliação quando desafia o estudante a olhar para si mesmo e conscientizar-se do lugar em que se encontra no percurso rumo à apropriação de aprendizagens. A observação cuidadosa acompanhada de comentários (orais ou escritos) indutores de reflexões despertam e fortalecem o autoconhecimento. O intuito é atender os estudantes em seu direito de conhecer suas conquistas e necessidades, bem como propiciar condições que os auxiliem na busca por maneiras de continuar aprendendo.

Não se trata de expor e/ou comparar percursos dos estudantes. Também não cabe pedir-lhes que falem ou escrevam sobre si mesmos quantificando suas condutas. A autonotação ou a autoconceituação sugerem conclusão de processo, enquanto o feedback e a autoavaliação acontecem continuamente retroalimentando o desenvolvimento do trabalho pedagógico. O feedback constitui, portanto, elemento fundante do processo avaliativo formativo e indispensável ao aprendizado e prática da autoavaliação.

Envolver os estudantes no processo avaliativo por meio da autoavaliação conduzida na perspectiva formativa é parte do projeto maior da escola. Trata-se de decisão coletiva que deve compor o planejamento do trabalho escolar, comumente nominado projeto político-pedagógico (PPP). O uso da autoavaliação de forma isolada, por parte de alguns professores, dificulta o seu aprendizado e a sua prática, uma vez que tende a ser conduzida de diferentes maneiras, cabendo aos estudantes adaptarem-se a cada uma delas. Não se trata de engessar condutas, mas canalizar todas elas no sentido formativo. Se devidamente discutida e planificada, aumentam-se as chances de que isso aconteça. Para isso, é necessário que todos os envolvidos aprofundem conhecimentos acerca do assunto, o que reforça mais uma vez a imprescindibilidade da formação docente, de modo que viabilize, entre outros aspectos, o letramento em avaliação.  

As contribuições da aprendizagem da autoavaliação se estendem para além da sala de aula. O trabalho desenvolvido por toda a escola também deve ser sistematicamente avaliado, o que acontece, em grande medida, por meio da autoavaliação dos sujeitos que dele participam. São momentos em que o coletivo analisa o trabalho que realiza, incluindo o processo avaliativo desenvolvido em sala de aula. São, assim, conectados os dois níveis da avaliação realizada pela e na escola: a desenvolvida em sala de aula e a que envolve toda a escola. 

A autoavaliação e a avaliação por colegas enriquecem grandemente a avaliação formativa se “praticadas de maneira respeitosa e inseridas no trabalho que valorize a colaboração e a participação. Requerem do coordenador das atividades segurança quanto a seus fundamentos. Não é o caso de ninguém se aventurar a introduzi-las sem os estudos necessários” (Villas Boas, 2020, pp. 19 e 20).

 O trabalho escolar não prescinde, portanto, da autoavaliação. Quando realizada por toda a comunidade escolar, a autoavaliação possibilita o repensar do PPP e a reestruturação de elementos que precisam ser redirecionados. A aprendizagem e a prática da autoavaliação tornam mais coerente e produtivo esse processo. Em que circunstâncias contribuí com o trabalho do grupo?  A que aspectos preciso me atentar? Que mudanças devo inserir em minha prática a fim de beneficiar o trabalho escolar? São questões que permitem aos participantes analisarem suas individualidades diante do projeto que é coletivo.

O valor da autoavaliação pela escola se agiganta diante da possibilidade de envolver os estudantes e seus familiares. Assim como participam da construção do PPP, devem, do mesmo modo, avaliar sua execução. Sabendo que essa autoavaliação acontece em diferentes instâncias, cabe planejá-la de modo a assegurar o envolvimento desses segmentos. Essa é mais uma forma de promover o seu aprendizado por parte de todos os que a exercitam.

            A avaliação do trabalho escolar conta também com dados fornecidos por agentes externos à escola, como é o caso dos resultados dos exames aplicados em larga escala. É o olhar extrínseco contribuindo com a autopercepção dos que integram o seu interior. Agrega-se, desse modo, o terceiro nível da avaliação aos demais desenvolvidos na e pela escola. Vale lembrar que, por serem os principais sujeitos que conferem dinamismo ao contexto escolar, os profissionais que atuam na escola são os que melhor conhecem essa realidade. As consequências de suas escolhas, incluindo o sucesso ou insucesso acadêmico dos estudantes são também de responsabilidade desse grupo. Por isso, os dados fornecidos por exames externos apenas se somam ao que o grupo pensa. Devem ser rechaçados quando destoam da autoanálise crítica de seus profissionais.

            Depreende-se dessas reflexões que avaliar por meio da função formativa é imperioso. Isso porque em uma sociedade como a nossa, organizada para o privilégio de uns e a derrocada de outros, se amplia a necessidade de estender a todos o direito de aprender, mesmo que, para isso, seja necessário contrapor “imposições” sociais que impelem à competição, individualização e seleção, demandando da escola, esforços em sentido oposto. A prática da autoavaliação é parte dessa empreitada, o que torna o seu ensino/aprendizagem uma necessidade.

Reflexões:

            O texto inicia apontando a necessidade de o professor, em especial, aqueles que atendem uma grande quantidade de estudantes, utilizarem a autoavaliação como recurso para que o exercício da avaliação formativa seja possível, viabilizando a incorporação de aprendizagens por todos os estudantes.  Desse entendimento emergem questionamentos que podem contribuir com as discussões nas escolas:

  1. Recomenda-se que o aprendizado da autoavaliação ocorra desde os primeiros anos de escolarização. Qual importância disso? Depois desse período, o aprendizado da autoavaliação ainda é viável? Vamos pensar como isso pode ser feito nos diferentes anos escolares?
  2. Como o feedback do professor e dos pares pode auxiliar para o aprendizado e a prática da autoavaliação?
  3. A importância da autoavaliação do trabalho escolar reside, entre outros aspectos, na possibilidade de se articular aos demais níveis da avaliação: avaliação dos estudantes em sala de aula e os exames aplicados em larga escala. Como a escola pode avaliar o trabalho que realiza valendo-se de informações provenientes da sala de aula e dos exames externos?

Referências:

HADJI, Charles. Avaliação desmistificada. Porto Alegre: Artmed, 2001.

VILLAS BOAS, Benigna Maria de Freitas; FERREIRA, Cristhian Spíndola; DIAS, Elisângela Teixeira Gomes; SOARES, Enílvia Rocha Morato Soares; SARDINHA, Lígia Carolina Santana Catunda; MORAIS, Lucimara Gomes Oliveira de; Oliveira, Rose Meire da Silva e. Lugar da avaliação nos Projetos Político-Pedagógicos de escolas públicas do Distrito Federal. Curitiba: CRV, 2025.

VILLAS BOAS, Benigna Maria de Freitas. Esmiuçando a avaliação formativa. In.: VILLAS BOAS, Benigna Maria de Freitas. (org.). Conversas sobre avaliação. Campinas, SP: Papirus, 2020.

VILLAS BOAS, Benigna Maria de Freitas. O dia a dia do trabalho pedagógico: contribuições para a formação do professor e dos estudantes. In: VILLAS BOAS, Benigna Maria de Freitas. (org.). Avaliação: interações com o trabalho pedagógico. Campinas, SP: Papirus, 2017.


[1] A exposição do professor Luiz Carlos de Freitas tem como título “O papel dos exames de avaliação da educação” e está disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=tzWh8bRD5M8. Acesso em 07 dez. 2025.

[2] “Processo mental interno pelo qual um sujeito toma consciência dos diferentes aspectos e momentos de sua atividade cognitiva” Hadji (2001, p. 103).

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